sexta-feira, 11 de março de 2016

O JARDINEIRO E O MÉDICO


CONTO

O JARDINEIRO E O MÉDICO

Estava-mos próximo da Primavera, o médico/cirurgião passeava-se por entre aquele jardim de luxúria onde brotavam  rosas, tulipas, violetas, jasmins, lírios, orquídeas e outras tantas flores, difíceis de descrever, rodeadas por sebes viçosas e bem aparadas.
Os pássaros, chilreando, saltitavam de ramo em ramo das frondosas árvores aí existentes.
Congeminando sobre a melhor técnica cirúrgica a aplicar numa das suas doentes, o médico deleitava-se com a beleza de cada flor ao mesmo tempo que aspirava o odor perfumado existente no ar.
De repente, depara-se com o jardineiro que cuidava dedicadamente daquele incomparável jardim.
Então pergunta-lhe:
- Explique-me com consegue ter e tratar um jardim tão repleto de beleza?
É fácil! Diz o jardineiro.
Venho todos os dias, limpo as ervas daninhas, recolho as folhas e as plantas mortas, rego as plantas, aparo as sebes e os ramos das árvores e o resto deixo ao cuidado da própria natureza.  
Fixando o olhar no infinito, o médico-cirurgião meditava na simplicidade da explicação antagónica do caso cirúrgico que tinha entre mãos e do qual previa o pior dos desfechos. A morte do paciente.
O Jardineiro, homem perspicaz, disse:
- Parece-me um homem pensativo e preocupado.
- Qual causa da sua preocupação?
O médico:
- Sabe, tenho uma jovem mulher com um cancro do ovário e estou preocupado porque desconheço se a minha intervenção lhe prolongará a vida ou o sofrimento.
- Olhando para si fico-lhe com uma certa inveja.
- Enquanto lida com a beleza e a vida eu fico-me com a tristeza e a morte.
Então, o Jardineiro, num gesto altruísta perguntou:
- Quer plantar estas rosas brancas?
O médico:
- Quero, mas tem de me explicar como se faz.
O Jardineiro:
- É muito fácil!
- Abre-se um buraco na terra, humedece-se a terra, enterra-se o galho ou galhos com a raiz e já está!
- Ora experimente!
O médico assim fez.
Diz o jardineiro:
- Muito bem doutor!
- Vê como é fácil!
O médico:
- Acha que ficou bem?
- A planta não vai morrer?
Diz o Jardineiro:
- O doutor está pessimista!
- Qual quê!
- De certeza que não morre!
- Daqui para a frente é só regar e nem é necessário eu cá vir. Tem rega automática.
O médico:
- Com o seus modestos ensinamentos, plantei uma rosa branca.
- Este momento foi inebriante!
- Foi como que tivesse dado uma vida!
- Estou-lhe muito grato!
De repente, um pensamento surge na mente do médico que pergunta ao jardineiro:
- Diga-me!
- Com a minha ajuda seria capaz de abrir um ventre e retirar um ovário ou uma criança?
O jardineiro:
- Ó doutor!
- Está a brincar comigo?
- Claro que não!
- Não tenho grau académico nem experiência técnica para executar um trabalho dessa natureza!
O médico:
- Compreendo!
- Tratar a terra, plantar, árvores e flores é de uma simplicidade que até eu consegui sem nunca o ter feito.
- É lindo deixar a natureza actuar até a Primavera chegar.
- E quando a Primavera chegar vejo o resultado maravilhoso do meu procedimento.
- Tratar pessoas é um pouco mais complicado e o resultado é, muitas vezes, deprimente porque a natureza, nestes casos, funciona no sentido da morte e não no sentido da vida.
Olhar fixado no pavimento do jardim, o médico saiu do local com os olhos banhados em lágrimas murmurando para consigo:
- Porque não sou jardineiro?
- Será que um médico cirurgião não vale nada quando na presença de um jardineiro?