sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS


DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS

Evitando vir a ser acusado de plágio sobre um artigo publicado numa revista médica da minha especialidade "ATA OBSTÉTRICA E GINECOLÓGICA PORTUGUESA", decidi escrever uma análise e um resumo sobre as DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS.

Objectivo:
Transmitir à população feminina e às minhas doentes em particular toda a informação necessária sobre assunto social e culturalmente muito controverso.  

Remeto-me à minha experiência clínica, citando alguns trechos do artigo publicado, com os quais concordo.  

Excluo qualquer intenção de plagiar os meus distintos colegas.  

Tenho ainda por objectivo esclarecer factos que se prende com as "amizades" criadas na minha página do Facebook a qual se encontra repleta de transcrições de "AMOR", MANDALAS, imagens e fotografias de rara beleza, admito, mas que mais não são que composições informáticas, e outras descrições sem qualquer fundamento técnico, cultural ou cientifico, como por exemplo masoterapias, quiterapias, kinesiologia, quiriopratica neurológica, ayurveda, reiki, Pilates, boot camps, Fit zones, medicinas transcendentais, chinesas e indianas, almas, espiritualidade, Yogas terapias, assim por diante, num nunca mais terminar de charlatanices que me fazem recordar os professores caramba, bambo, mansur, babu, sidia, etc. Etc. Etc.

Peço perdão pela crítica, mais não pretendo que ser construtivo e alertar os incautos.  

Pensava eu, erradamente, que o site tinha por finalidade trocar impressões, reviver, contactar, encontrar, amigos e gratuitamente trocar, compartilhar informação técnica e científica.
Desta forma tão simples desfazer mitos, anti culturas, anti conhecimento e principalmente combater a ignorância que graça por este País Do Minho ao Algarve.

As disfunções sexuais têm grande impacto no bem-estar pessoal e no relacionamento inter-pessoal.

É relevante que o médico, especialmente os ginecologistas e até os enfermeiros de saúde pública, desenvolvam uma capacidade para "discutir" as dificuldades sexuais dos pacientes tendo como objectivo principal o diagnóstico e um acompanhamento bem direccionado.  

No caso das disfunções sexuais femininas, a especialidade de ginecologia, pela proximidade, é uma mais-valia para a abordagem sobre o tema.

No entanto, o trabalho tem de ser multidisciplinar porque é essencial para o sucesso terapêutico.

A psicoterapia, a terapia cognitiva sexual do casal é necessária em resultado dos factores psicológicos, interpessoais e sociais que determinam, precipitam ou mantêm a disfunção.

É pertinente realçar que a por detrás de uma disfunção sexual feminina está sempre ou quase frequentemente uma disfunção sexual masculina.

Estudos multicêntricos efectuados nos Estados Unidos, em homens e mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 59 anos, salientam que as disfunções sexuais são um problema de saúde pública.

No entanto, a saúde sexual não é abordada pelos médicos nem enfermeiros.
Há um distanciamento entre os médicos e os seus pacientes em relação à abordagem deste assunto.

O médico tem falta de tempo, escassez de tratamentos disponíveis, pouca experiência, ausência de treino, desconforto, na abordagem desta patologia.

Os pacientes tem algum pudor, relutância, embaraço, falta de privacidade, para confidenciar aos técnicos de saúde a existência de uma disfunção sexual.

Muitos doentes têm a percepção de que os problemas sexuais fazem parte do envelhecimento ignorando a existência de um tratamento.


RESPOSTA SEXUAL FEMININA
Por fastidioso escuso-me a transcrever os autores e os vários modelos de RESPOSTA SEXUAL FEMININA, limitando ao mais recente que data de 2001, o qual se encontra transcrito na revista médica citada.

Segundo o seu autor "Rosemary Basson, o modelo actualmente é do tipo circular e introduz um novo conceito.


O CONCEITO DA INTIMIDADE EMOCIONAL.
Dá ênfase à interferência dos factores bio-psico-sociais na resposta sexual.
A busca da intimidade emocional será um dos motivos pelo qual a uma mulher sexualmente neutra se torna receptiva ao estímulo sexual.
Se esses estímulos forem percepcionados de forma positiva poderão desencadear desejo sexual e excitação e conduzir à satisfação física (orgasmo) e ou à satisfação emocional.

Ambas reforçam a própria intimidade do casal.

Este modelo é capaz de explicar o motivo pelo qual algumas mulheres, SEM DESEJO SEXUAL ESPONTÂNEO INICIAL, tem actividade sexual e ocorre frequentemente em mulheres com relações estáveis e prolongadas.

Basson definiu a excitação física, traduzida pela vaso congestão genital e a excitação subjectiva traduzida pelo sentimento de excitação que antecede a resposta fisiológica.

Não há uma correlação directa entre ambas, podendo existir vaso congestão genital na ausência de excitação subjectiva e vice-versa.
Daí se depreender as dificuldades no tratamento da disfunção da excitação sexual.


DEFINIÇÃO

Segundo a 4ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais (Diagnostic and Statistical of Mental Disorders – DSM-IV) as disfunções sexuais femininas classificam-se em quatro categorias.

A presença de sofrimento pessoal ou interpessoal é um critério essencial para o diagnóstico, bem como a persistência ou recorrência da perturbação.


AS DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS PODEM SER CLASSIFICADAS:

1.    Disfunção do desejo sexual (engloba dois tipos de disfunção)
a.    Desejo Sexual Hipoactivo: ausência ou diminuição persistente ou recorrente de fantasias sexuais e/ou desejo para ter actividade sexual ou a para a sua receptividade, que causa sofrimento pessoal ou inter-pessoal. Ou seja, como quando abordo as minhas doentes sobre o “assunto” e elas me explicam que tem actividade sexual porque “eles” é que querem caso contrário não o fariam e boa vontade.
b.    Aversão sexual: persistente ou recorrente evitando o contacto genital sexual com o parceiro que causa sofrimento pessoal ou inter-pessoal.
2.    Disfunção da excitação sexual: incapacidade persistente ou recorrente para atingir ou manter excitação sexual, que causa sofrimento pessoal ou inter-pessoal. Pode ser expressa por ausência subjectiva de excitação ou por ausência de excitação genital.

3.    Disfunção do orgasmo: incapacidade persistente ou recorrente para atingir o orgasmo, após adequada estimulação e excitação, que causa sofrimento pessoal e interpessoal.

4.    Disfunção sexual por dor: engloba três tipos de disfunção.

a.    Dispareunia: dor genital persistente ou recorrente associadas à estimulação coital, que desencadeia sofrimento pessoal ou interpessoal.
b.    Vaginismo: Espasmo involuntário persistente e recorrente da musculatura do terço externo da vagina, que interfere com a penetração vaginal e que causa sofrimento pessoal ou interpessoal.
c.    Dor Sexual Não Coital: dor genital persistente ou recorrente induzida por estimulação sexual não coital, que causa sofrimento pessoal ou interpessoal.

Estas disfunções raramente se apresentam como entidades clínicas independentes, sendo frequente uma mulher apresentar mais de que uma disfunção sexual em simultâneo.


CAUSAS DE DISFUNÇÕES SEXUAIS
É sabido que a resposta sexual é individual e modulada por vários factores, interpessoais, psicológicos, e biológicos.

Factores que interferem com a resposta sexual podendo predispor ou precipitar o aparecimento de disfunções sexuais ou mantê-las:
1.    Idade.
2.    Fase reprodutiva.
3.    Menopausa espontânea ou cirúrgica.
4.    Experiências sexuais traumáticas como abusos sexuais.
5.    Depressão, psicoses, ansiedade,
6.    Neoplasias, doenças crónicas, endocrinopatias, doenças neurológicas, cirurgias tratamentos medicamentosos.
7.    Caracteristicas da relação:
a.    Intimidade.
b.    Duração.
c.    Qualidade.
d.    Conflitos interpessoais.
8.    Factores Psicológicos:
a.    Humor deprimido.
b.    Imagem corporal.
c.    Baixa auto-estima.
d.    Educação repressiva e negativa em relação à sexualidade.
e.    Religião.
f.     Cultura.
g.    Nível socioeconómico.


ETIOLOGIA DAS DISFUNÇÕES SEXUAIS

Disfunção do desejo sexual:
1.    Factores Psicológicos.
2.    Medicamentos.
3.    Alterações endócrinas.

Disfunção da excitação sexual:
1.    Factores Psicológicos.
2.    Compromisso vascular.
3.    Patologia neurológica.
4.    Medicamentos.
Disfunção do Orgasmo:
1.    Factores Psicológicos.
2.    Doenças vasculares.
3.    Lesões dos nervos pélvicos.
4.    Lesões da espinal medula.
5.    Medicamentos.
6.    Coito interrompido.
7.    Preservativos.
8.    Factores inerentes ao parceiro sexual.

Disfunção sexual por dor: 
1.    Factores Psicológicos.
2.    Lesões dos Nervos Pélvicos.
3.    Compromissos vasculares.
4.    Alterações Vulvo-vaginais.
5.    Alterações endócrinas.
6.    Hipertonicidade dos músculos peroniais.
7.    Medicamentos.

PREVALÊNCIA DAS DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS
O desejo sexual Hipoactivo é em todos os estudos o tipo de disfunção sexual com maior prevalência, embora possam variar entre 16 a 75%.

1.    Disfunção da excitação: 12 a 64%.
2.    Disfunção do orgasmo: 16 a 48%
3.    Disfunção por dor:           7 a 58%

O último estudo realizado em 2005, a 1250 mulheres de idades compreendidas entre os 18 e os 75 anos revelou uma prevalência:

1.    Disfunção da excitação:  35%
2.    Disfunção do orgasmo:   32%
3.    Disfunção por dor:           32%
4.    Disfunção do desejo: 35%
MEDICAMENTOS QUE INTERFEREM NEGATIVAMENTE COM RESPOSTA SEXUAL FEMININA

·         Anti-histamínicos.
·         Anti-convulsivantes.
·         Metronidazol.
·         Metoclopramida.
·         Anti-hipertensivos:
o   Diuréticos.
o   B bloqueadores.
o   Bloqueadores do cálcio.

·         Anti-androgénios:
o   Cimetidina.
o   Espironolactona.

·         Agentes Anquilantes:
o   Ciclofosfamida.

·         Anti-colinérgicos.
·         Anti-depressivos.
·         Hipnóticos.
·         Sedativos.
·         Anti-psicóticos.
·         Anti-estrogénios:
o   Tamoxifeno.
o   Raloxifeno.
o   Agonistas.
·         GNRH
·         Contraceptivos Orais.

Na abordagem destas doentes é essencial uma boa história clínica para exclusão de patologias e tanto quanto possível PRESENÇA DO SEU PARCEIRO SEXUAL


Ao v/ dispor para qualquer dúvida.

     (Nelson de Brito)
(médico Ginecologista/obstetra)